Quinta-feira, 19 de Julho de 2018
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Construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu pode ser descrita como epopeia bíblica
Imagem do Artigo: Construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu pode ser descrita como epopeia bíblica

por João Zuccaratto

Aproveitamento da força hidráulica do Rio Paraná resolve pendências fronteiriças entre Brasil e Paraguai. Obra chegou a contratar 5 mil trabalhadores por mês. Represa forma lago com 170 quilômetros de extensão. Perda das Sete Quedas será lamentada eternamente.

Escrever sobre a história da Usina Hidrelétrica de Itaipu me fez relembrar fatos que apenas conheci pela imprensa, no início da minha fase de adulto. Afinal, este tema só fugiu dos gabinetes com as obras iniciadas, em 1974. E, dada à precariedade das comunicações na época, o que tínhamos eram notícias esparsas. Assuntos com importância suficiente para fazerem parte de edições do Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, por exemplo.

Passados 40 anos, pesquisando para este texto, deparei com detalhes desconhecidos por todos naqueles tempos. Nunca fui informado de que afogar o maravilhoso patrimônio natural de Sete Quedas veio como resultado de negociações de limites de território com o Paraguai. Tinha ouvido que a Argentina reagiu à construção da barragem ameaçando fazer uma maior, rio abaixo, com nível de represa acima do que existe hoje em Itaipu.

Imagina uma estupidez desta levada adiante. Adeus Cataratas do Iguaçu! E também cidades como Foz do Iguaçu, Puerto Stroessner — agora Ciudad del Leste —, Guaíra e muitas outras, tanto na Argentina quanto no Brasil e no Paraguai. Mas isso é assunto para outro momento. Aqui, tratamos apenas de como foi idealizado, planejado e erguido este singular monumento à capacidade de realização do homem sobre a face da Terra.

O lago formado pela Usina Hidrelétrica de Itaipu afogou esta maravilha da natureza, conhecida como Sete Quedas. Será que valeu a pena pagar este preço?

Solução de impasse diplomático vindo do século XVIII

O Tratado de Madri, de 1750, delineou os atuais contornos do Brasil, mas a interpretação do documentos deixou imprecisas as fronteiras junto ao Rio Paraná

A construção de Usina Hidrelétrica de Itaipu solucionou um impasse diplomático entre Brasil e Paraguai com origens na metade do século XVIII. Com os limites impostos no Tratado de Tordesilhas, assinado em 7 de junho de 1594, há muito esquecidos, Espanha e Portugal negociaram novo pacto, definindo fronteiras das colônias sul-americanas. E este acordo entrou em vigor a 13 de janeiro de 1750, batizado como Tratado de Madrid.

As negociações privilegiaram o uso de montanhas e rios para a demarcação de limites, consagrando o princípio do direito romano do “uti possidetis, ita possideatis”: quem possui de fato, deve possuir de direito. Este acerto delineou os contornos aproximados do Brasil de hoje. Mas a interpretação do documento deixou imprecisas as fronteiras às margens do Rio Paraná, uma vez que se desconhecia onde ficava seu final, ou a sua foz.

Como daquele ponto em diante seria outro rio, era necessário encontrar novo marco geográfico para definir o lado de cada um. Os espanhóis defendiam que ele acabava antes das Sete Quedas. Os portugueses, o contrário. E a discussão seguiu pelos séculos, sendo reaberta após a Guerra do Paraguai, que durou de 1865 a 1870. No tratado de paz de 1872, os negociadores apostaram terem resolvido aquele problema. Lego engano!

Demarcação das fronteiras interrompida por 100 anos

Com a indefinição sobre os limites entre os territórios do Brasil e Paraguai, aquele lado de terra à direita do curso do Rio Paraná, e à direita da imagem, poderia ser território brasileiro ou paraguaio, dependendo da interpretação que se desse o topo da Serra de Maracaju

Como já se sabia que a foz do Rio Paraná ficava bem abaixo, dentro da Argentina, o texto firmava que, de Norte para Sul, os territórios entre Brasil e Paraguai dividiam-se pelo Rio Paraná, das Sete Quedas até a foz do Rio Iguaçu. De Leste para Oeste, sobre o solo, o “possuir de fato, possuir de direito” iria sendo determinado de acordo com uma linha imaginária unindo o ponto final das Setes Quedas ao cume da Serra de Maracaju.

Só que a Serra de Maracaju, situada ao Sul do até então Estado de Mato Grosso, vista a partir das Sete Quedas, dividia-se em dois ramos. Olhando para ela, a partir das quedas d’água, sendo tomado como referência o cume ao Norte, o Brasil perderia território; já aquele ao Sul tirava terras do Paraguai. Por isso, os trabalhos de topografia marcando os limites em terra foram suspensos 20 quilômetros antes de se alcançar as cachoeiras.

Esta pendenga ficou em banho-maria até meados do século XX. Tudo mudou a partir da percepção do potencial hidrelétrico do Rio Paraná. Até 1960, várias pesquisas avaliaram aquela riqueza. E a joia da coroa eram as Sete Quedas. Mas ali o único empreendimento a se tornar realidade foi uma pequena usina, aproveitando a força das águas de um dos saltos para iluminar a vizinha cidade de Guaíra e um quartel do Exército lá estabelecido.

Estudo propõe usina dentro de território brasileiro

Se este projeto da Usina de Ilha Grande, toda ela em território apenas brasileiro, tivesse sido levado à frente, e o da Usina de Itaipu tivesse seu nível máximo reduzido, o Brasil e o mundo não teriam perdido a maravilha da natureza que é Sete Quedas

Em 1962, o Brasil encomendou novos estudos, abrangendo até a foz do Rio Iguaçu. A proposta final nem abordou esta última parte, sugerindo apenas uma usina capaz de produzir três vezes o consumo do Brasil naquela época. Como ficaria justamente antes das Sete Quedas, não seria necessário sacrificar o monumento natural. E, melhor, tanto a barragem quanto o lago a ser formado estariam apenas dentro de território brasileiro.

Foi o estopim para Brasil e Paraguai entraram em nova rota de colisão. Mas, em vez de ir às vias de fato, optaram por sábia opção: unir forças. Naquele mesmo ano, cogitou-se, pela primeira vez, das nações produzirem energia em conjunto. Mas, em 1965, o tema retrocedeu. Houve, inclusive, o deslocamento de destacamento militar brasileiro para a área em litígio. Sob a ameaça de nova guerra, Brasil e Paraguai buscaram a diplomacia.

A inauguração da Ponte da Amizade alimentou a cooperação, ao permitir a exportação da produção paraguaia através do território e portos brasileiros. As negociações levaram à Ata do Iguaçu, assinada em 22 de junho de 1966. Nela, as duas nações manifestavam disposição de estudar o aproveitamento dos recursos hidráulicos existentes em conjunto, no trecho do Rio Paraná que ia desde o Salto de Sete Quedas até a foz do Rio Iguaçu.

Formação do lago encerrou as contendas diplomáticas

Com a formação do Lago de Itaipu, e o consequente afogamento do marco geográfico das Sete Quedas, as fronteiras passaram a ser definidas pela linha  que marca o centro dos espelhos d'água, conforme pode ser visto na imagem captada no Google Maps

Estudos técnicos apontaram a proposta para encerrar o litígio. Executada, aproveitaria a força do Rio Paraná e colocaria fim àquela contenda secular. Era de uma simplicidade ímpar. Consistia em colocar uma barragem em um ponto acima da foz do Rio Iguaçu, formando um lago. Ele cobriria quase toda a área em litígio, inclusive as Sete Quedas, local do qual surgiam os questionamentos à definição de fronteiras entre os dois países.

Daí em diante, os limites entre Brasil e Paraguai seriam dados a partir de pontos para os quais não havia discussão até às linhas localizadas ao meio das superfícies de água. Isto, tanto no sentido Norte e Sul quanto no Leste e Oeste. O espaço em litígio não-inundado seria transformado em reserva ecológica, pertencente de modo igual às duas nações. E com esta sugestão aceita por ambas as partes, em 1967, a paz estava finalmente selada!

Se não havia mais chusmas entre Brasil e Paraguai, eles aparecem com a Argentina. Ela também tinha direitos e interesses sobre aquelas águas. A questão chegou a ser tema de Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1972. E só chegou ao fim de 19 de outubro de 1979, com o Acordo Tripartite, acertado entre os três países. Ele estabeleceu regras para o aproveitamento do Rio Paraná desde as Sete Quedas até a sua foz, no Rio da Prata.

Pedra que faz água cantar: maior potencial energético

Enquanto o problema com a Argentina não era resolvido, Brasil e Paraguai ganharam tempo. Contrataram estudos para definir o melhor local para aquela grande obra e dos relatórios emergiu um trecho após uma curva acentuada como de rendimento energético excepcional. Isto porque ali, além da correnteza medir forças com os barrancos, era o início de um extenso cânion, escavado pela natureza em muitas centenas de milênios.

No local, havia uma ilha, quase sempre submersa, batizada pelos índios de “itaipu”, ou “a pedra que faz a água cantar”. Assim, em 26 de abril de 1973, Brasil e Paraguai firmam o Tratado de Itaipu, instrumento legal para o aproveitamento hidrelétrico do Rio Paraná pelos dois países. Este ato coincide com o início da crise econômica advinda do aumento do preço do petróleo, evento que intensifica a busca por fontes de energia renováveis no planeta.

Em maio de 1974, é formada a empresa encarregada de gerenciar a construção da usina. Assim nasceu a Itaipu Binacional, o primeiro passo de uma longa travessia. O Governo brasileiro, responsável por obter recursos para a obra, consegue no mercado externo um financiamento junto a bancos estatais e instituições financeiras privadas. O prazo para pagar a dívida é de meio século. Ela terminará de ser quitada muito em breve, em 2023.

Revista Popular Mechanics: Trabalho de Hércules

Imagem de um dos projetos de engenharia da barragem da Usina Hidrelétrica de Itaipu: esta folha tem seis metros de comprimento e, junto com ela, todos os desenhos originais estão sendo digitalizados pela empresa

Construir a Hidrelétrica de Itaipu foi considerado “Trabalho de Hércules” pela revista Popular Mechanics, publicação respeitada dos Estados Unidos da América. Os trabalhos começaram praticamente no mês seguinte, com a chegada das primeiras máquinas para aprontar as vias de acesso ao futuro canteiro de obras. Durante o segundo semestre, foi estruturado o acampamento pioneiro, surgindo as primeiras edificações administrativas.

Nascem almoxarifados, alojamentos, escritórios, postos médicos, refeitórios e muitos outros, inclusive um posto de combustíveis, existente até hoje. Surge um “formigueiro” humano. Entre 1975 e 1978, quase 10 mil moradias foram construídas nas duas margens para abrigar homens atuando na obra. Um hospital é erguido para atender trabalhadores. Foz do Iguaçu, cidade de 20 mil habitantes, passa para 100 mil habitantes em 10 anos.

Entre 1978 e 1981, até 5 mil pessoas eram contratadas por mês. Ao longo da obra, em função do extenso período de serviços e da rotatividade de pessoal, cadastrou-se mais de 100 mil trabalhadores. No pico da construção da barragem, Itaipu mobilizou cerca de 40 mil funcionários no canteiro e em seus escritórios de apoio no Brasil e no Paraguai. A massa de salários acelerava o já forte comércio de Foz do Iguaçu e Puerto Stroessner.

Obra iniciada com o desvio do curso do Rio Paraná

O canal já pronto, inclusive com parte da barragem já concluída, aguardando apenas as paredes de cimento que seguravam as águas serem destruídas para ser iniciado o desvio das águas do Rio Paraná

O canal já pronto, inclusive com parte da barragem já concluída, aguardando apenas as paredes de cimento que seguravam as águas serem destruídas para ser iniciado o desvio das águas do Rio Paraná

Mas primeiro é preciso desviar o curso do Rio Paraná, com a remoção de 55 milhões de metros cúbicos de terra e rocha, escavando um desvio de dois quilômetros. Este material vai compondo as barragens laterais, aqueles muros de pedra com força suficiente para segurar as águas do lago a ser formado. O trabalho termina dentro do prazo. Em 20 de outubro de 1978, a variante é aberta com a ajuda de quase 60 toneladas de dinamite.

Momento em que quase 60 toneladas de dinamite destroem as paredes de concreto que evitavam que as águas do Rio Paraná tomassem o curso do desvio escavado na rocha

A correnteza se divide entre seu curso milenar e o novo caminho, com 150 metros de largura e 90 de profundidade. Isto vai permitir secar aquele trecho do leito original, para ali ser iniciada a construção a barragem principal, em concreto. Naquela mesma data, é assinado um contrato de US$ 800 milhões, garantindo a compra de todas as 20 turbinas e 20 turbo-geradores. Mas eles só começarão a ser instalados decorridos mais três anos.

Com as águas passando também pelo canal de desvio, são iniciados os diques que permitiram secar o leito do Rio Paraná para então ser iniciada a construção da barragem de uma margem à outra

Começa nova e fervilhante etapa da construção. Num único dia, 14 de novembro de 1978, são consumidos 7.207 metros cúbicos de concreto, recorde sul-americano. Era o equivalente a erguer a estrutura de um prédio de 10 andares a cada hora. Ou 24 edifícios num dia. A façanha foi alcançada com o uso de sete cabos aéreos para fazer o transporte e o lançamento nos pontos respectivos. A obra ganha contornos de uma operação bélica.

Com a correnteza desviada para o canal escavado na margem brasileira, e com o terreno livre das águas, a enorme barragem toma forma, cruzando o leito seco do Rio Paraná de um lado a outro

O curso do Rio Paraná seguindo pelo canal de desvio, a barragem sendo erguida sobre o antigo leito e, já em território do Paraguai, e o vertedouro nascendo, embaixo, à esquerda

Transporte da primeira peça demora três meses

O transporte das peças das fábricas até o canteiro de obras da Usina de Itaipu era uma operação que praticamente paralisava o trânsito de veículos nas estradas brasileiras

Em 1980, o transporte de materiais para Itaipu mobilizou mais de 20 mil caminhões e quase 7 mil vagões ferroviários. O total de concreto usado na barragem alcança 12,3 milhões de metros cúbicos, volume suficiente para concretar 20 mil quilômetros de rodovia. Começa a fase de montagem das unidades geradoras. O transporte de peças inteiras, dos fabricantes até a usina, é uma epopeia seguida dia a dia pela televisão.

A primeira roda da turbina, com 300 toneladas, saiu de São Paulo em 4 de dezembro de 1981. E chegou ao canteiro de obras três meses depois, em 3 de março de 1982. Como algumas estradas e diversas pontes não suportariam o peso, a carreta com a peça teve de fazer muitos desvios, cobrindo 1.350 quilômetros. Isto foi melhorando com o tempo, e ganhando agilidade. O recorde foi de apenas 26 dias de viagem entre a fábrica e a usina.

As obras da barragem chegam ao fim em outubro de 1982. Isto permite o fechamento das comportas do canal de desvio, para formar o reservatório da usina. Começa então a Operação Mymba Kuera — traduzindo do tupi para o português: “pega-bicho”. E salva quase 37 mil animais que viviam na área a ser inundada. O enchimento interfere na vida de milhares de pessoas vivendo às margens do Rio Paraná, de Foz do Iguaçu até Guaíra.

O momento em que a enorme carreta trazendo as 300 toneladas dos primeiros equipamentos chega à barragem, três meses depois de ter iniciado a viagem de 1.350 quilômetros

Protestos marcam o desaparecimento das Sete Quedas

Turistas se arriscam entre as pedras para chegar mais perto do cânion de escoamento das águas depois que elas desabavam das Sete Quedas. O movimento para vê-las pela última vez cresceu muito antes do início da formação do lago

Os moradores da primeira veem o rio esvaziar, com o fechamento das comportas. Os da segunda lamentam o afogamento das Sete Quedas. Artistas prestam homenagem aos saltos prestes a desaparecer. Ao longo de 170 quilômetros, somente no lado brasileiro, são cobertas cerca de 8,6 mil propriedades urbanas e rurais, com seus donos sendo todos indenizados. Os Municípios que perderam terras passaram a receber royalties da usina.

Devido às fortes chuvas e enchentes da época, o Rio Paraná leva apenas 14 dias para encher o grande reservatório. A superfície de água soma 135 mil hectares, quatro vezes a área da Baía da Guanabara. Em 5 de novembro de 1982, os presidentes do Brasil e do Paraguai acionam o mecanismo que levanta as 14 comportas do vertedouro, liberando a saída da água represada. Assim, inauguram oficialmente a maior hidrelétrica do mundo.

Ela começa a produzir mais de um ano depois. A primeira turbina é testada em 17 de dezembro de 1983. Mas só começa a produzir energia em 5 de maio de 1984. A venda de energia começa em 1º de março de 1985. Daí em diante, a cada ano, de duas a três unidades eram instaladas. Em 1991, 18 estavam funcionando. Mas somente em maio de 2007 entraram em operação as duas últimas, completando as 20 previstas no projeto.

A comparação com o guindaste e o homem, logo abaixo, dá uma ideia do gigantismo dos tubos que levam água para as turbinas na Usina de Itaipu

As instalações e o entorno da Usina Hidrelétrica de Itaipu tornaram-se atrativos turísticos de fama mundial. Todos os dias, centenas de turistas vindos de todas as partes do planeta, como estes da foto, cumprem as programações oferecidas pela empresa


Este texto foi produzido a partir dos conteúdos disponíveis no site da Usina Hidrelétrica de Itaipu — www.itaipu.gov.br —, enriquecidos com pesquisas na Internet e memórias pessoais do autor.


Matéria produzida a partir da participação na edição 2015 do Festival de Turismo das Cataratas, realizado de 17 a 19 de junho, na cidade de Foz do Iguaçu, localizada no extremo Oeste do Estado do Paraná, na região da Tríplice Fronteira, sendo vizinha à Argentina e ao Paraguai.

Source:: Revista Pelo Mundo – Pelo Trade

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