Sexta-feira, 20 de Julho de 2018
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O mercado de eventos e suas novas demandas

Você consegue imaginar um empresário que tem a pachorra de dispensar mais de 45 milhões de potenciais consumidores para seus produtos ou serviços? Imagine também que esse mesmo empresário dispensa mais outros 40 milhões de possíveis consumidores. Agora tente imaginar que nosso kamikase ainda dispensa, além da legião descrita, outros 30 milhões. Ao fazer uma conta simples você chega à conclusão de que este empresário não se importa que 105 milhões de pessoas deixe de gastar dinheiro com os produtos ou serviços da sua empresa. No mínimo você deve estar pensando que esse sujeito é louco ou muito tolo, não é mesmo? Pois bem, e se eu te disser que esse maluco pode ser você? Impossível? Que tal verificar?

No Brasil, segundo o senso do IBGE de 2010, cerca de 23% da população é formada por pessoas com algum tipo de deficiência, seja física, visual, auditiva, intelectual ou múltipla. Atualmente isso representa algo em torno de 46 milhões de brasileiros. Diferentemente do que prega o imaginário coletivo, é cada vez menor o número de indivíduos que nascem com alguma dessas deficiências ou as adquire em tenra idade. Também foi-se o tempo em que essas pessoas eram condenadas a permanecer encarceradas em instituições de saúde ou escondidas dentro de casa pelas próprias famílias. Ao contrário, hoje a maioria das pessoas que pertencem a este expressivo segmento da população adquiriram suas deficiências já adultas, em acidentes de trânsito, acidentes de trabalho, durante a prática de esportes, em decorrência da violência urbana ou vitimas de doenças, entre tantos outros fatores. Indivíduos considerados até então “normais” pela sociedade, mas que de repente se viram impedidos de andar, enxergar, ouvir, falar ou mesmo raciocinar como antes. De uma hora para outra se tornam paraplégicos, tetraplégicos, hemiplégicos, amputados, cegos, surdos, com déficit de raciocínio, controle da fala e assim por diante. Pessoas que, acostumadas a exercerem sua cidadania por anos, ao regressarem a suas vidas diárias após o período hospitalar e de reabilitação não se sujeitam a abrir mão desse direito e passam a exigir cada vez mais que a sociedade adote medidas que garantam seu retorno às atividades profissionais e sociais, com autonomia e dignidade.

Outra realidade é o aumento da expectativa de vida da população em função do maior acesso a mecanismos de prevenção e tratamento de doenças, onde as pessoas tendem a envelhecer de forma cada vez mais ativa e produtiva na sociedade. Porém, sofrerão inexoravelmente ao longo tempo perdas na capacidade de locomoção, visão, audição e memória, o que também demanda a necessidade de estruturas urbanas, produtos e serviços adequados a essas novas limitações físicas e sensoriais. A projeção é que nos próximos vinte anos serão mais de 30% da população brasileira acima de 60 anos de idade.

Com o avanço das tecnologias, do estilo de vida virtual e sedentário, e com o aumento do consumo de alimentos industrializados mais ricos em calorias e gorduras é possível observar o aumento considerável da obesidade em todas as faixas etárias e classes sociais. Em países desenvolvidos o percentual de pessoas com sobrepeso é crescente e no Brasil 13% da população já é considerada com obesidade mórbida. Isso significa que, muitas vezes, essas pessoas acabam por ter dificuldades de locomoção e de uso de alguns mobiliários e equipamentos urbanos, o que também acarreta na necessidade de espaços e produtos que atendam a essas características.

Nesse momento você deve estar pensando: “mas o que isso tem a ver com o meu negócio? Eu não trabalho com essas pessoas e muito menos ofereço algum produto ou serviço para elas”.

Ledo engano. Todas essas pessoas são consumidoras com maior ou menor potencial econômico e em algum momento, mais cedo ou mais tarde, baterão a porta do seu comércio, da sua empresa ou solicitarão seus serviços profissionais, direta ou indiretamente. E, muito provavelmente, acompanhadas de familiares ou amigos. Então, você está preparado para atendê-las?

Agora que ficou escancarado que as pessoas com deficiência e pessoas com mobilidade reduzida, entre elas os idosos, gestantes, obesos ou qualquer outra pessoa com limitações de locomoção ou comunicação temporárias representam um número extraordinariamente significativo de consumidores e cuja somatória desses segmentos sociais, ainda considerados “minorias” no Brasil, é maior do que a de populações inteiras de inúmeros países pelo mundo, qual dono de supermercado, hotel, agência de viagem, empresa de transporte, restaurante, boteco, escola, loja de roupas, locadora de veículos etc ainda será refratário, louco ou tolo o suficiente para dispensar tamanho potencial de faturamento?

E no setor de eventos, será que existe essa demanda? Não tenha dúvida! Até porque os eventos acabam por serem transversais a todos os temas e setores da sociedade. Corporativos, institucionais, públicos, industriais, comerciais, educativos ou comportamentais, são voltados para os mais diferentes públicos e sobre os mais diversos assuntos. Diversidade de produtos e serviços à disposição da diversidade de consumidores! Parece lógico, não?

Se você atua nessa área, o importante é buscar qualificação, orientação profissional com capacitação comprovada e passar a verificar de imediato as seguintes questões: o local do evento está preparado para receber qualquer tipo de empreendedor, cliente ou visitante de acordo com as normas técnicas da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas? Estacionamentos, entradas e saídas, balcões para credenciamento, sanitários, praças de alimentação, restaurantes, estandes e palcos permitem o acesso, com segurança e autonomia, de usuários de cadeira de rodas, muletas ou outro equipamento auxiliar? Existe comunicação adequada e pessoal capacitado para acompanhar visitantes cegos ou que possuam baixa capacidade de visão? Existe comunicação visual adequada para atender estrangeiros ou pessoas com baixa audição? Há disponibilidade de intérpretes da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS para atender pessoas surdas? O material de divulgação, sites, blogs, fanpages, impressos em geral, palestras e exposições atendem a essas diversas necessidades de comunicação?

A promotora de eventos Reed & Alcântara Machado, realizadora da feira EQUIPOTEL que ocorrerá em setembro deste ano, entendeu a importância econômica e social de se adequar para o atendimento a diversidade de público, inclusive das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, e passou a investir nesse sentido. Tudo leva a crer que será a primeira feira nacional com potencial para receber o certificado em acessibilidade da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas. Além disso, decidiu disponibilizar na feira um espaço para a divulgação do conceito de Desenho Universal, com o objetivo de orientar os empresários da hospitalidade e da alimentação fora do lar sobre como conceber ou adequar seus estabelecimentos para receber a diversidade de clientes, em conformidade com a legislação e normas técnicas, e sem distinção de espaços, com qualidade estética e investimento compatível.

Pois bem, as informações aqui apresentadas apontam o caminho para a possibilidade de prospecção de novos negócios e captação de expressivos nichos de mercado para as ações consolidadas. Concepção correta dos ambientes, produtos e serviços para torná-los acessíveis a todas as pessoas de forma responsável e sustentável, tanto do ponto vista econômico quanto ambiental. Esse é o grande desafio do século XXI.

Entretanto, se você ainda não se convenceu da importância dessa nova ordem social fica aqui um alerta: no Brasil existe uma ampla legislação que, há anos, aponta para essas obrigatoriedades. Até aí nenhuma novidade, inclusive quanto à negligência e descumprimento dessas normativas jurídicas pelos setores públicos e privados. Porém, recentemente foi sancionada a “Lei da Inclusão” que não só complementa a legislação de acessibilidade e inclusão social já existente, mas passa a tratar a falta de acessibilidade como discriminação. E discriminação é crime! Você pode postergar as adequações e esperar até que alguém lhe cobre por isso, sem dúvida. A questão é que quanto mais você esperar para adotar a medidas necessárias, mais você corre o risco de ter que desembolsar mais dinheiro, não só para adequar rapidamente os ambientes, produtos ou serviços, mas também para ter que contratar um bom advogado.

Fica então a provocação para a reflexão: frente ao exposto, não lhe parece mais inteligente transformar o limão em uma caipirinha deliciosa ou numa saborosa torta ao invés de ter que chupar a fruta azeda e ainda por cima perder dinheiro? Agora é com você!

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