Quinta-feira, 19 de Julho de 2018
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Observando o Benchmarking

Esta semana tive conhecimento de várias missões de benchmarking que estão sendo promovidas por diferentes destinos e organizações para colher experiências internacionais, principalmente, sobre gestão turística de destino e de equipamentos e serviços, tendo em vista um melhor desempenho nos mega eventos – e as respectivas expectativas geradas por eles – que nos aguardam.

Acho importante, então trazer esse tema para abordagem pois percebo algumas leituras um pouco distorcidas do seu real propósito e acho fundamental provocar essa reflexão para que as oportunidades – e os vultuosos investimentos – não sejam desperdiçados.

Primeiramente é importante que se defina o que é benchmarking – E NÃO BENCHMARKETING. Temos vários autores para isso (e posso sugerí-los), mas o texto abaixo, recortado de um website para suporte acadêmico a estudantes tem um conceito bem simples e objetivo:

Benchmarking é um processo de pesquisa que permite aos administradores realizar comparações de processos e práticas “companhia-a-companhia” para identificar o melhor do melhor e alcançar um nível de superioridade ou vantagem competitiva. Ao contrário de outras ferramentas de planejamento, o Benchmarking encoraja as companhias a procurar, além de suas próprias operações ou indústrias, por fatores-chaves que influenciem a produtividade e os resultados…. Benchmarking é um processo contínuo de comparação dos produtos, serviços e práticas empresarias entre os mais fortes concorrentes ou empresas reconhecidas como líderes…. (http://www.coladaweb.com/administracao/benchmarking/)

Procura-se, portanto, verificar como os nossos similares – que tenham reconhecido destaque de excelência em prestação de serviços ou produção- encontram soluções para seus problemas, melhoram sua produtividade e desempenho, como utilizam-se das tecnologias ao seu favor, como superam crises, enfim, como trabalham para atingirem esse patamar de referência. Claro que é necessário que haja uma contextualização do observado nos diferentes cenários econômicos, políticos, sociais, etc nos quais está inserido pois isso é determinante no entendimento dos processos.

Mas o que quero chamar a atenção é que a observação não tem por objetivo a mera importação e aplicação das práticas. Se for esse o motivador para participar de tais missões, posso assegurar que se estará perdendo tempo e dinheiro pois nenhuma realidade pode ser transposta, nem as estratégias meramente copiadas, visto que existe este contexto externo e até interno ( faturamento, cultura, objetivos, missão, etc). Então como aproveitar a vivência e a experiência – e não querer cortar os pulsos – ao se deparar com um CVB com faturamento de quase 300 milhões de dólares/ano ou um centro de eventos com mais de 600.000m2 de área construída?

E ai, que a meu ver, entra a expertise técnica, a forma como a missão será conduzida. O propósito de uma viagem de benchmarking não é o deslumbramento, não é mostrar para os participantes uma realidade inatingível, mas trazer práticas que possam servir como INSPIRAÇÃO para as soluções dos problemas e otimização de recursos dentro de sua realidade local. No projeto Competitividade de CVBX, onde analisamos 10 CVBx internacionais, sempre o foco era a aplicabilidade, o que foi validado pelos CVBx brasileiros nos seminários de multiplicação do projeto, que aprovaram mais de 90% das práticas trazidas como sendo aplicáveis. Assim, não só a escolha de equipamentos, como a das práticas de excelência e dos temas a serem abordados nas reuniões com os entrevistados deve ser coerente com o perfil do público participante.

Por isso, entendo que missões multisetoriais são complexas, e a meu ver, pouco eficazes. Não se pode entrar em profundidade em nenhuma temática, tem-se que manter a observação em níveis superficiais para que seja acessível para todos. Como compatibilizar os interesses do comércio, com a indústria, com os serviços? Ou da construção, da alimentação, do turismo , do agronegócio? Em 07 dias, beira o impossível. Já complementariedade dentro do mesmo setor funciona lindamente. No Bench de Eventos e Negócios dos EUA tínhamos operadoras, organizadoras de congressos, CVBx e centros de eventos, serviços de apoio entre os integrantes. Todos tinham bons conhecimentos do setor de eventos, embora sob óticas específicas que se encaixam e nos oportunizam olhar de um ângulo diferente, altamente enriquecedor.

Fundamental também é o preparo do “OLHAR” do participante. Se o propósito é a inspiração, a vivência tem que ser plena, tem que ser sensorial, tem que ter foco. Detalhes importantes não podem passar batidos e devem ser registrados. A metodologia do projeto Excelência em Turismo do SEBRAE/MTUR/;EMBRATUR previa reuniões diárias, de troca de percepções e altamente niveladoras de conhecimento. Fotografava-se muito, falava-se muito.

È fundamental que essas missões sejam concebidas tendo por foco um perfil específico de público alvo, preferencialmente com atividades relacionadas e que sejam conduzidos por pessoas com conhecimento do tema. A partir disso, uma metodologia de trabalho que preveja a integração e interação dos participantes com vistas a geração de sugestões de implementação de práticas compatíveis com a realidade, derivadas da observação. Benchmarking definitivamente não é só contemplação, mas análise, adaptação e aplicação.

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